O MEMORIAL HEMAR BARATA REVELA A CONTRIBUIÇÃO DE EDGAR SANTOS E DO MEXICANO RENÉ PRATT PARA O DESENVOLVIMENTO DO XADREZ NA BAHIA
A colaboração do Mestre Nacional Adriano Barata com Gina Leite, biógrafa da Mestre Internacional Ruth Volkl Cardoso, desvenda a importância do Reitor Edgar Santos para cultivar a prática de xadrez na Universidade Federal da Bahia.
Acervo da Hemeroteca Digital Brasileira
Em primeiro lugar o jornal O Estado de São Paulo de 4 de março de 1954 traz um importante testemunho do enxadrista Frederico Loepert [1] sobre a contribuição do mestre mexicano René Pratt para o xadrez baiano. Segundo Loepert, a Universidade Federal da Bahia teria contratado Pratt em 1953 para lecionar xadrez como matéria facultativa, nas faculdades de Medicina, Odontologia, Engenharia, Filosofia, Ciências Econômicas e Arquitetura
Acervo do Memorial Hemar Barata
Em um jornal de 1953 [2], Pratt informa que sete faculdades se inscreveram no “Maior Campeonato Universitário realizado na Bahia com o patrocínio da Reitoria e da FUBE” e que a Faculdade de Engenharia foi campeã. Uma nota manuscrita registrada por Hemar Barata registra que a equipe campeã Engenharia era formada por Hemar Barata, Sérgio Guimarães, Octamar Marques, Helio Varela e Luís Gonzaga Marques.
Em 25 de setembro de 1954 [4], René Pratt faz referência Sergio Guimarães como campeão universitário de 1953 e a Hemar Barata como vice, a um “match” Itapagipe x Nazaré, ao Campeonato da Politécnica e à V Olimpíada – sendo Hemar um “esportista completo ao participar com sucesso em natação, futebol, basquete e também xadrez”. A coluna traz uma partida de Hemar Barata contra Antonio Pinto.
Em uma coluna de 1954 [2], Pratt informa que Hemar Barata, então estudante de engenharia, foi o campeão invicto. o Riograndense do Norte estudante da Escola Politécnica conquistou o segundo lugar e o terceiro, quarto e quinto lugar, estaria por decidir-se entre estudantes de Escola de Belas Artes e Medicina.
É importante destacar que em novembro de 1960 foi estabelecida a Federação Bahiana de Xadrez e que entre seus fundadores estão os campeões baianos José Pinto de Paiva e Hemar Barata, egressos da Universidade Federal da Bahia. Estas informações ajudam a preencher uma lacuna sobre a história para reconhecer a importância dos pioneiros do xadrez na Bahia.
Gina Leite, biógrafa de Ruth Cardoso e pesquisadora da história do xadrez baiano
contato@oreiclubedexadrez.com
[1] Assim era conhecido o Sr. Fritz Loepert que em 1958 era Diretor para Assuntos Interiores da Confederação Brasileira de Xadrez. [Publicação “Distrito Federal, 22 de março de 1968] [Chess Composers]
[2] Recorte de jornal e veículo não identificado
[3] Federação Universitária Bahiana de Esportes
[4] Data registrada manuscrita
—
TRANSCRIÇÃO DA MATÉRIA DO JORNAL “O ESTADO DE SÃO PAULO” DE 4 DE MARÇO DE 1954
O xadrez na Universidade da Bahia
Do enxadrista sr. Frederico Loepert, desta Capital, recebemos a seguinte colaboração:
Em nossa recente visita à Bahia, encontramos René Pratt. O mestre mexicano é quase desconhecido entre os enxadristas do Sul do País. Ele é, entretanto, popularíssimo entre os amantes da arte de Caíssa em todo o Norte brasileiro, da Bahia ao Amazonas.
René Pratt é natural do México. Menino ainda, empolgava os admiradores de xadrez de sua terra com as suas proezas sobre o tabuleiro. Antes de completar 20 anos, integrava a turma oficial mexicana e defendeu as cores de sua pátria inúmeras vezes, em confrontos internacionais. Anos seguidos, percorreu o México a serviço de divulgação enxadristica. Para o bom êxito dessa missão, contou esteve no plano dos sucessivos governos. Mas Pratt não se contentou com esse campo de ação. Também as enxadristas dos países vizinhos do México e das Guianas beneficiaram-se do seu estimulante entusiasmo.
Depois… bons ventos trouxeram-no para o Brasil. Dotado de personalidade singular e insinuante, soube Pratt criar, em todas as cidades que visitou, ambiente propício à consecução de seus objetivos: estimular as atividades enxadristicas e criar ou fortalecer um movimento pró-reconhecimento do valor social, cultural e educativo do xadrez.
O seu método consiste, como ele mesmo diz, em trabalhar primeiro no plano horizontal e depois no vertical. Assim, chegando numa cidade e encontrando — como geralmente sucede — um ambiente hostil ou indiferente, ele atua primeiramente sobre a opinião pública, fazendo palestras para leigos, sob forma compreensível, tecendo considerações sobre o valor do xadrez no campo educativo, cultural e social. Com isso, ele geralmente consegue reabilitar e valorizar, perante a sociedade local, os núcleos de xadrez já existentes. Assim revitalizados, esses núcleos fornecem aptos para receber a ação de Pratt no sentido vertical, isto é, instrução enxadristica, para tecnicamente melhorar o seu nível, enquanto do trabalho horizontal resulta o ingresso de novos interessados e a criação de novos núcleos.
O que mais impressiona nessa cruzada do mestre mexicano é o seu êxito. No terreno ingrato e difícil que é a divulgação enxadristica profissional, René Pratt marca um tento espetacular: ele satisfaz plenamente e é satisfeito plenamente. Qual é seu segredo?
Devemos procurar a resposta no seu caráter e na sua personalidade. Pratt gosta de xadrez. Gosta tanto que contagia a todos que com ele tem contacto. O magnetismo de seus olhos e a suavidade de seu linguajar castelhano-português têm um forte poder de persuasão. Além disso, ele impressiona pela versatilidade no terreno enxadristico. A par de grande força de jogo, suas habilidades mais admiradas são jogar às cegas, conduzir simultâneas de cegas, jogar partidas relâmpago dando cinco minutos de reflexão para um minuto para ele próprio, conduzir simultâneas de cinquenta ou mais tabuleiros, descritas por uma estação de rádio, sendo ele, Pratt, o locutor. Também as suas melodias de ensino a principiante são originais, interessantes e eficientes. Sua popularidade na Cidade de Salvador, que tem 400.000 habitantes, é tão grande que um passeio pelas ruas centrais foi interrompido quatro ou cinco vezes — por um rapaz que lhe disse haver aprendido a Defesa Siciliana, por uma mocinha que, radiante, lhe contou ter vencido a irmã, e assim por diante.
Deve ter sido essa popularidade que levou a Universidade da Bahia, há um ano, a propor ao mestre lecionar xadrez, como matéria facultativa, nas suas faculdades de Medicina, Odontologia, Engenharia, Filosofia, Ciências Econômicas e Arquitetura. Aceita a proposta, tornou-se o mestre Pratt o primeiro professor de xadrez contratado por universidade brasileira, fato que honra não somente o mestre, mas a clarividência do reitor prof. Edgard Santos.
Onde quer que o mestre vá, consegue estabelecer núcleos enxadristicos. Nas residências de seus amigos, todos jogam xadrez, velhos, moços, senhoras e senhoritas. Nos ginásios, nas corporações militares, nas empresas e sindicatos, Pratt logrou a aquisição de mesas e peças, dando a todos ensejo de aprender o jogo dos reis. Até ao Instituto dos Cegos vai ele uma vez por semana, para ali também formar uma turma de dois enxadristas, para os quais a vida sem a luz dos olhos ganhou uma faceta nova e interessante.
Quatro jornais baianos recebem, regularmente, contribuição do mestre. Mas Pratt dispõe também de uma seção diária — O DIVERTIDO TORNA-SE FÁCIL — no “Diário de Notícias”.
O notável divulgador do xadrez já visitou todas as capitais do Norte do Brasil e algumas cidades do interior, onde pudemos verificar pessoalmente os efeitos benéficos do seu trabalho. Se, por pouco tempo, de sua atuação entre nós, o seu trabalho técnico não pode, evidentemente, apresentar resultados palpáveis, seu trabalho social, de propaganda e de ensinamento, tem deixado raízes profundas e sadias que nos deixam entrever a certeza dos seus frutos.

