2026: Centenário de Ruth Volkl Cardoso, primeira Mestre Internacional Feminina de xadrez do Brasil

Ruth Volkl Cardoso, pioneira do xadrez baiano, completaria 100 anos em fevereiro de 2026. Ela é uma peça importante na história do xadrez feminino brasileiro. Ruth foi uma das fundadoras da Federação Bahiana de Xadrez, ainda nos anos 60. Em 1970, foi a primeira brasileira a receber o título de Mestre Internacional e teve uma uma importante carreira internacional, chegando a ser uma das enxadristas mais fortes do hemisfério Sul.  

Apesar de ter iniciado no xadrez apenas na adolescência, Ruth alcançou o título de heptacampeã no Campeonato Brasileiro de Xadrez Feminino entre os anos de 1963 e 1977. Ela estreou em 1960 como vice-campeã do 4° Campeonato. Brasileiro Feminino, consolidou-se como pentacampeã em 1968, vice-campeã em 1971 e conquistou mais títulos de campeã em 1972 e 1977. 

Ruth também é bicampeã sulamericana, e, ao longo da década de 1970, consolidou uma carreira internacional, tendo participado de torneios América do Sul, América do Norte e Europa. 

Dora de Castro Rubio e Ruth Volk Cardoso (1960) Crédito: Clube de Xadrez de São Paulo

Sabe-se que Ruth é descendente de Carlito Stolze-Cardoso, brasileiro que teria ido estudar engenharia na Alemanha, e da alemã judia Emilia Maria Theresia Völkl. A documentação sobre o nascimento de Ruth Cardoso é contraditória. Ruth teria nascido em 9 de fevereiro de 1926, isto é o que atestam os registros de um levantamento de estrangeiros e judeus realizado após a Segunda Guerra Mundial na Alemanha, e sua a lápide no Cemitério dos Alemães (Federação, Salvador). Ou poderia ter nascido em 1934, como consta no seu CPF. Estas divergências de registro de nascimento não são incomuns na época: cabe notar que apenas em 1973 é instituída a Lei federal de registros públicos.

Ainda na década de 1930, a família Cardoso teria retornado para a Alemanha – uma viagem inoportuna, dado que a Alemanha vivia uma grande depressão econômica e eram crescentes as violências contra os judeus em decorrência da conquista da maioria no parlamento alemão pelo Partido Nazista, grupo político de extrema direita. A Segunda Guerra Mundial foi, então, deflagrada em 1939. Não há registros sobre a vida de Ruth nesta época, mas sabe-se que ela sofreu por toda a vida de um problema respiratório em decorrência das violências sofridas durante o Holocausto. Após a guerra Ruth esteve alojada em Munique – mas mas tampouco se sabe se ela teria sido repatriada imediatamente ou se teria emigrado para outro país. 

Ruth é presença marcante não apenas nos tabuleiros, mas como peça fundamental na história da gestão do xadrez baiano. Ruth trazia revistas, livros, tabuleiros e material de estudo de Nova Iorque e outras partes do mundo. Muitos jogadores baianos que se aperfeiçoaram nas técnicas com o material trazido por ela.

Em 1960, Ruth participa da criação e é a primeira presidente da Federação Bahiana de Xadrez. Nesta primeira gestão também estão presentes Hemar Barata como vice-presidente (campeão baiano falecido em janeiro de 2024) e Pinto Paiva como Diretor Técnico (duas vezes vencedor do Campeonato Brasileiro).  

Ruth faleceu em Salvador em fevereiro de 2000. Apesar desta trajetória surpreendente, a história de Ruth não ecoa na sociedade baiana. Este silêncio não é apenas sobre a história de Ruth – é um silêncio sobre mulheres que alcançam grandes conquistas e não têm reconhecimento. A baiana Sissi,  por exemplo, a melhor jogadora da primeira geração profissional de futebol feminino do Brasil, ainda é desconhecida para o grande público. A história de Ruth chama ainda mais atenção porque o xadrez até hoje é um esporte com baixa participação feminina – as mulheres representam apenas 15% dos jogadores registrados junto à Federação Internacional de Xadrez (FIDE).